Baile de debutante | Fifteen and counting

Quando começou sua companhia de dança em Goiânia, a capital do estado central de Goiás, a única referência cultural de alcance ancional vinda da região eram as duplas sertanejas que vendiam _ e vendem _ milhões de discos. Logo no primeiro trabalho, Versus, usando canções de Arnaldo Antunes e uma movimentação de sofisticada construção e vitalidade, a Quasar chamou a atenção e começou a sequência de entrevistas e reportagens onde Henrique Rodovalho passou a última década explicando como era possível, no afastado cultural que era Goiânia, fazer uma dança cujo resultado para muitos tinha ares “europeus”. “Era muito engraçado, porque as pessoas me perguntavam se eu gostava do Rosas, do Wim Vandekeybus, e eu não tinha visto nada deles. Mas ninguém acreditava”, lembra Henrique.

Com o tempo, a pesquisa de Rodovalho foi tomando os contornos que hoje são a marca da companhia, uma qualidade de movimento impecável, encenação inventiva e um olhar carinhoso sobre o cotidiano brasileiro.

“Quando a gente começou, claro que ninguém imaginava que a companhia ia ser nacionalmente depois internacionamente conhecida. Ter uma agenda internacional de apresentações? Era inimaginável. O plano era criar condições de trabalho para que a gente pudesse ficar em Goiânia, viver de dança aqui”, conta Henrique. “O fluxo de informação era muito menor, claro, sem internet e sem as viagens. Mas a gente já viajava para fazer aula, conhecia o que estava acontecendo”, conta.

No Rio, uma das primeiras a ver que os movimentos de Henrique eram uma assinatura foi Carlota Portella, que encomendou um trabalho para a sua Vacilou Dançou. “Acho bom que desde sempre eu tenha sido reconhecido como coreógrafo, mas não acho justo quando se coloca a companhia como sendo eu criando e eles executando. Somos um grupo desde o começo e apesar da minha responsabilidade ser a final, é um processo muito mais complexo de pesquisa e experimentação que envolve todo mundo do grupo”, divide Rodovalho.

Hoje com coreografias no repertório de várias companhias no Brasil e em Portugal, o coreógrafo sabe que fazer 15 anos tem mais a ver com crise que com festa. “É muito angustiante recomeçar sempre do zero, ter que criar algo novo e que ao mesmo tempo dê continuidade à trajetória do grupo. É um relacionamento de muitos anos, é preciso reencontrar a paixão”, diz. Perguntado se ainda acha que pode se reapaixonar pela dança que faz, Henrique pensa um pouco. “É difícil, mas ainda é o que mais me interessa”, avalia.

Estas questões todas atravessam as duas últimas iniciativas do grupo, a formação de um segundo núcelo de trabalho, mais experimental e não assinado por Rodovalho, o Desvio, e a ampliação do Centro Quasar, sede da companhia e agora local de investigação que oferece bolsas de formação e pesquisa para jovens artistas. “No Desvio os intérpretes criam juntos, não tenho qualquer decisão final. Mas eles me chamaram para criar um trabalho com eles e acho que vou topar. É muito bom poder desenvolver algo fora da Quasar e das demandas que a companhia hoje, dentro e fora do Brasil, quer atender”, diz o coreógrafo.

Henrique, como muitos diretores de companhias no Brasil, se ressente de ter que estar sempre pensando na situação financeira da companhia _ tem desde o ano passado os parocínios da Brasil Telecom e da Petrobrás, para produção e circulação, mas nenhum para a manutenção. “O que sustenta nosso dia-a-dia são são cachês internacionais. A turnê americana este ano, por exemplo, está sendo fundamental”, contabiliza. O grupo volta em outubro para uma série de shows nos Estados Unidos, e Henrique sabe que é a mistura de vitalidade, precisão e ritmos brasileiros que em muito abriu as portas internacionais. Mas vai mostrar agora “Empresta-me teus olhos”, criado a partir de uma residência num asilo de idosos em Goiânia (veja um trechinho da coreografia na nossa galeria de videos).

Para a turnê brasileira que comemora os 15 anos do grupo _ e que viaja com uma video-instalação com depoimentos sobre a trajetória do grupo _ a Quasar escolheu mostrar no Rio “Divíduo” (FOTO), uma peça sobre a falta de comunicabilidade do mundo contemporâneo. Ainda que não tenha a força cênica de “Coreografia para Ouvir”, feita a partir da trilha de áudio do documentário sobre músicos de rua “Som da Rua”, de Roberto Berliner, Divíduo mostra a linha de ação da Quasar em movimentos perfeitos, mas sem virtuosismo, e ótimos intérpretes se comunicando com a platéia sem cair na teatralização dos sentimentos.

A Henrique Rodovalho, que agora se oxigena com novas cabeças no Desvio e nos encontros internacionais, cabe levar a pesquisa de movimentos da Quasar para lugares mais densos, e a cada espetáculo criar, não um novo ambiente onde sua coreografia acontece das mesmas formas que já o consagraram, mas uma investigação sobre porque e como ela se dá. Redescobrir e se apaixonar de novo e de novo, como num longo e bom casamento, pela possibilidade de criar dança.When the dance company started of in Goiânia, the capital of the central state of Goiás, the only cultural reference of national reach coming of the region was the country music groups that sold _ and still sell _ millions. In the first work, Versus, using songs of Arnaldo Antunes and a movement of sophisticated construction and vitality, the Quasar called attention and started the roll of interviews and news articles where Henrique Rodovalho passed the last decade explaining how was it possible, in the far away place that was Goiânia (brazilian national media is in Rio or São Paulo), to make a dance work that, for many, had even an “european” feeling. I believe people ment it was good. “It was very funny, because everybody would ask me if I like Rosas, Wim Vandekeybus, and I, at that time, had never seen any of them. But nobody believed”, remembers Henrique.

With time, Rodovalho’s research took the lines that today are the trademark of the company: spotless movement, an inventive stage and an affectionate look on the daily Brazilian. “When we started, clearly nobody imagined that the company would be national and later internacionaly to be known. To have an international performancenschedule? It was unimaginable. The plan was to create work conditions so that people could be in Goiânia, dance here”, recalls the coreographer. “Information flow was smaller, clearly, before Internet and the trips. But people already travelled to study, we knew what was happening”.

In Rio de Janeiro, one of the first ones to see that Henrique had a signature was Carlota Portella, that comissioned a work for her Vacilou Dançou Company. “I think it is nice that I always have been recognized as a coreographer, but I don’t think it is fair when the company is described as being something I create and they execute. We are a group since the start and despite my final responsibility, it is a much more complex process of research and experimentation that involves everybody in the group”, shares Rodovalho.

Today with his works in the repertoire of companies in Brazil and Portugal, the artists knows that to make 15 years has more to do with crisis then with party. “Is very overwhelming to always recommence from zero, have to create something new that at the same time gives continuity to the group’s development. It is a relationship of many years, is necessary to find passion again”, he says. Asked if he still finds it possible to be in love again with the dance he makes, Henrique thinks a little. “It is hard, but still is what interests me more”.

These questions all cross the two last initiatives of the group, the set of a second work group, more experimental and not signed by Rodovalho, called Desvio, and the broader view of the Quasar Center, headquarters of the company and now place for research that offers grants for young artists. “Desvio allows the interpreters to create together, I do not have any final decision. But they had called me to create a work with them and I am tempted. It is very good to be able to develop something out of Quasar and the demands that the company today, inside and out of Brazil, wants to fullfill”, he evaluates.

Henrique, as many company directors in Brazil, regrets having to be always thinking about the financial situation _ he has since the last year the support of Brazil Telecom and Petrobras, for production and circulation, but none for the maintenance. “What keep our day-by-day are the international fees. The american tour this year, for example, has been fundamental”. The group goes back in October for a series of shows in the United States, and Henrique knows that it is the Brazilian mixture of vitality, precision and rhythms that opened the international doors. But he will now show there “Empresta me teus olhos”, created after a residence in an old people asylum in Goiânia (watch a excerpt of the shopw in our video gallery).

For the Brazilian tour that celebrates the 15 years of the group _ and travels with an video-installation on the trajectory _ Quasar chose to show in Rio “Divíduo” (PHOTO), an observation on the lack of communicability of the contemporary world. Even without the scenic force of “Coreografia para ouvir”, made from the audio track of the documentary film on street musicians “Som da Rua”, by Roberto Berliner, “Divíduo” shows the line of action of Quasar in perfect movements, but without virtuosity, and excellent interpreters that communicate with the audience without falling into drama.

Henrique Rodovalho, now oxigenated with new minds in Desvio and the international meetings, has to take Quasar’s movements research to much denser places, and create each new work, not a new environment where his choreography happens on the same forms that already had consecrated him, but an inquiry on why and how it happens. Rediscover and get passionate again and again, as in a long and good marriage, with the possibility of creating dance.

One Comment

  1. nydia
    30 de outubro de 2008 at 17:27 · Responder

    por favor eu sou professora de historia da dança e artita plastica quero uma informaçao de como posso adquirir material video sobre o trabalhos de wim vandekeybus.
    grata pela atençao

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