De caixas e interações | On boxes and interaction

Sandra Meyer é Coordenadora do Curso de Especialização em Dança Cênica do Centro de Artes da Universidade do Estado de Santa Catarina e Doutoranda do Programa de Comunicação e Semiótica da PUC/SP..Sandra Meyer coordinates the Specialization Course in Dance at Santa Catarina State University and is finishing her Doctorate in the Communication and Semiotics Program at PUC/SP.

Diante de uma platéia lotada, o Grupo Cena 11 apresentou o Projeto SKR – Procedimento 1, no dia 29 de agosto, no Teatro do Itaú Cultural de São Paulo. Na mesma ocasião houve o lançamento do livro que estabelece uma análise da obra do grupo, “A Dança dos Encéfalos Acesos”, de Maíra Spanghero, ambos contemplados pela primeira edição do Programa Rumos Itaú Cultural Transmídia. .

A publicação da obra da pesquisadora catarinense Maíra Spanghero, fruto da pesquisa realizada em seu mestrado na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, reafirma os laços cada vez mais estreitos entre o saber produzido na universidade e o mercado cultural brasileiro, além de registrar com propriedade teórica a proposição artística de uma companhia de dança que já deu provas de sua importância no contexto artístico nacional..

A dança do Cena 11 é atravessada por inúmeras questões conectadas com a contemporaneidade e que suscitou de Spanghero instrumentos teóricos como os estudos ligados ao CorpoMídia, Teoria da evolução cultural e Teoria geral dos sistemas. O livro desenha um mapa da dança-tecnologia, onde a autora insere sua hipótese sobre a obra do grupo Cena 11; analisa evolutivamente as seis criações da companhia, chamando atenção para as idéias que germinam e florescem de uma obra para outra e descreve as relações entre dança e tecnologia singularizadas no conjunto coreográfico composto por Alejandro Ahmed, o coreógrafo e diretor da Cia. O Corpo-marionete, o corpo-autômato, o corpo em risco e outros objetos de pesquisa do grupo que permeiam as obras em fenótipos e ambientes distintos – do vídeo game ao robô – fornecem material para a cuidadosa e preciosa análise de Spanghero. .

Entendendo a dança enquanto uma área de conhecimento, a companhia de dança catarinense está implementando um percurso com vistas à montagem do espetáculo SKINNERBOX, com estréia prevista para 2004. O Grupo Cena 11 nomeia seu processo criativo como um procedimento investigativo, entendendo que o corpo que dança também cria hipóteses que podem ser comprovadas ou questionadas. Por meio da dança e da tecnologia, propõe parâmetros definidos de discussão e interação com o público – controle e comunicação, sujeito e objeto, homem e máquina – de olho nas relações híbridas e não hierárquicas entre natureza e cultura. .

A construção coreográfica da Cia Cena 11 desta vez abre espaços, ainda relâmpagos, de uma gestualidade pouco explorada pelo grupo anteriormente. Entre as quedas no chão e a neutralidade na representação peculiar ao trabalho do grupo, há toques em partes do corpo e um olhar menos vazado que imprime momentos de maior “humanidade” na proposta do corpo objeto/boneco pretendida pelo grupo.

Das ações motoras já emergem qualidades que as tornam matéria poética, provocando um efeito de reconhecimento de trajetos energéticos, traços fisiológicos e elementos emocionais, sem compactuar, entretanto, com o jogo mimético da ação dramática. Escapar à pulsão narrativa do espectador e ao figurativo parece tarefa mais árdua na dança, visto que a figura humana, com seu repertório de vida, as suscita. Da qualquer forma, as “figuras” da dança, em movimento de fato, sugerem imagens que dificilmente não levarão a alguma espécie de narrativa, mesmo que não linear ou dramatizada.

A conexão pretendida pelo grupo entre um homem que é objeto e uma máquina que admite certa humanidade ganha ignição pelo próprio tema que permeia o experimento SKR: a questão do comportamento. Os elementos postos em cena ganham conectividade em alguns momentos. Noutros, ela ainda está por vir. Pelo ponto de vista do receptor, relatados no debate após a apresentação, há comunicação maior de um corpo com o outro pelo toque ou pela aproximação que as imagens projetadas em telão dos bailarinos em tempo real provocam, imagens estas provenientes da câmera de vídeo que passeia pelo espaço sobre um pequeno protótipo de robô teleguiado.

Entre os parâmetros eleitos pelo grupo para nortear sua proposta coreográfica a questão do controle se evidencia. As palavras pronunciadas _ “solta”_, e gestos como o de tapar os olhos do outro, pontuam as relações de restrição e permissão do movimento e do comportamento. Mesmo assinando seus atos em primeira pessoa _ seus nomes são mencionados em off e inscritos em seus sapatos _ os corpos dos integrantes da companhia ora agem, ora sofrem a ação do mundo, pondo em cheque a noção de sujeito e de objeto, bem como a questão do controle, da imprevisibilidade e da ação do tempo nas relações entre as coisas.

Em se tratando de um processo e não uma obra acabada, o “Procedimento 1” já exala inteligência e vigor e apresenta uma cena elegante e precisa. Tanto a apresentação da “formulação coreográfica”, de aproximadamente 40 minutos, tanto o debate que o sucede, mediado por Fabiana Britto, orientadora do Projeto de Pesquisa, estão em constante reavaliação. O que é posto à prova e que é passível de intervenção do público não é bem o processo, mas sim o procedimento resultante de uma hipótese. A estrutura coreográfica é minimamente alterada e as reflexões entre público e o grupo será levado ao próximo procedimento.

Para compor SKINNERBOX, Alejandro Ahmed parte de uma teoria comportamental para desencadear suas reflexões. O grande problema que escapa ao determinismo das teorias comportamentalistas que gravitam em torno de Pavlov, Watson e Skinner, o de não considerar a infinita variedade de respostas possíveis dadas pelo mesmo estímulo, será o grande desafio do grupo em sua experimentação. Para se cercar de maior objetividade, o Cena 11 propõe três parâmetros básicos de leitura de sua abordagem coreográfica, a ser respondida pelo público num formulário: as relações entre homem e máquina, sujeito e objeto e controle e comunicação.

Resta saber os níveis de permeabilidade e contaminação a que se propõe o grupo ao estabelecer a estratégia de abrir seu procedimento ao público, que é convidado a interagir com os pressupostos da proposta coreográfica definidos pelo Grupo. Um exercício de flexibilidade se impõe, entre a aceitação das proposições provenientes da recepção do público e a defesa dos princípios próprios da Cia. Quem controlará quem?

Distribuição gratuita para bibliotecas e instituições culturais do livro Dança dos Encéfalos Acesos, de Maíra Spanghero, mediante solicitação ao e-mail atendimento@itaucultural.org.br ou pelo telefone: (11) 3268.1776.

In front of a crowded auditorium, Cena 11 presented Project SKR/ Procedure 1, last August 29, at Itaú Cultural of São Paulo. In the same occasion, took place the launching of the book that establishes an academic analysis of the group’s research, A Dança dos Encéfalos Acesos, by Maíra Spanghero, both contemplated by the first edition of the Rumos Transmídia (a grant given by Itaú Cultural Arts Center). The publication of the essay of the catarinense researcher Maíra Spanghero, fruit of the work carried through in her Masters in the Catholic University of São Paulo, reaffirms that the distance between knowledge produced in the university and the Brazilian cultural market is getting narrower each time. It also register with theoretical property the artistic proposal of a dance company that has already proven its importance in the national artistic context.

The dance of Cena 11 is crossed by innumerable questions hardwired with the contemporary and that is what excited Spanghero to use theoretical instruments such as studies of Bodymedium, cultural evolution and general systems Theory. The book draws a map of the dance-technology, where the author inserts its hypothesis on the research of Cena 11; it evolutively analyzes the six creations of the company, calling attention for the ideas that germinate and blossom of a work to another and describes the relations between dance and technology pointed in the compositions of Alejandro Amhed, coreographer and director of the group. The Body-marionette, the body-automaton, the body in risk and other objects of research for the group in distinct environments – from videogame to robots – supply material to the careful and precious analysis of Spanghero.

Understanding dance as a knowledge area, the dance company is implementing a complex process that will lead to the new work, SKINNERBOX, with foreseen premiere for 2004. Cena 11 nominates its creative process as a investigative procedure, understanding that the body that dances creates hypothesis that can be proven or questioned. By means of the dance and the technology, it proposes a set of parameters of discussion and interaction with the audience – control and communication, citizen and object, man and machine – with an eye at the hybrid and not hierarchic relations between nature and culture.

The choreographic construction of Cena 11 now opens spaces, still like lightning strokes, of gestures little explored by the group previously. Among the hard falls and the neutrality in representation that are peculiar to the group, now there are some parts of the body to be touched and a less transparent look that supply more humane moments in the intended proposal on the body object/doll.

From the actions already emerge qualities of poetical substance, provoking recognition of energy passages, traces and emotional elements, without recurring, however, to the mimetic game of the dramatical action. To escape the narrative drive of the spectator and figurative seems an arduous task in dance, since the human figure, with its repertoire of life, excites them. In any form, the dance figures here suggest images that will hardly not lead to a narrative, even if not linear or dramatized.

The connection intended between a man that is object and a machine that admits certain humanity gains ignition for the proper subject that crosses experiment SKR: the behavior question. The elements ranks in scene gain conectividade at some moments. At others, it is still to come. From the receiver’s point of view, made clear at the debate after the presentation, the bigger communication comes from a body with the other or by the touch or approach that the projected images of the dancers in real time provoke, images comming from the video camera that takes a walk aroun the space on a small remote control robot.

The question of the control becomes evident among the parameters elected for the group to guide its choreographic proposal. The spoken words _let go _, and gestures such as to cover the eyes of the other, evidenciate the relations of restriction and permission of the movement and the behavior. Despite the fact that their mouvements are signed in first person _ names are mentioned and writen in the shoes _ the dancers bodies, however, suffer action from the world, putting in check the object and citizen notion, as well as the question of the control, the imprevisibility and the time factor in the relations between the things.

Considered as a process and not a finished work, Procedimento 1, already exhales intelligence and strenght and ipresents an elegant and precise scene. Both the presentation what the group calls the choreographic formulation of approximately 40 minutes, and the debate that succeeds it, mediated by researcher Fabiana Britto, is in constant reevaluation. What it is to be tested and that is open to intervention by the audience is not the process itself, but the resultant procedure of a hypothesis. The choreographic structure is slowly modified and the reflections between audience and the group will be taken to the next procedure.

To compose SKINNERBOX Alejandro Amhed starts from a behaviour theory to ignite his thought. The great problem that escapes to the determinism of behaviourist theories that gravitate around Pavlov, Watson and Skinner _ not to consider the infinite variety of possible answers given by the same stimulaton _ will be the great challenge for group in its experimentation.

To surround itself with bigger objetivity, Cena 11 considers three basic parameters for reading its choreographic proposal, to be answered by the audience in a writen form: the relation between man and machine, citizen and object and control and communication.

It remains to be known at wich levels of permeability and contamination the group will work when establishing a strategy to open its procedure to the audience, who is invited to interact with the choreographic proposal defined by the group. A flexibility exercise imposes itself, between the acceptance of the proposals reorganized by the audience reception and the defense of the principles of the artists in the group. Who will control who?

Free distribution for libraries and cultural institutions of the book by Maíra Spanghero, by request to the email atendimento@itaucultural.org.br or by telephone: (55-11) 3268.1776.

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