Logomarca da dança | The logo of dance

A sincronia entre mercado e cultura é um movimento complicado. Uma parceria obtusa e muitas vezes traiçoeira, mas que ao mesmo tempo é de alguma forma inerente à difusão do resultado artístico. E tudo, especialmente, para empobrecimento do setor cultural, que se vê, na maioria das vezes, dominado pela mão invisível do mercado. Afinal, não é preciso ir muito longe para se ter um exemplo patente de que aquela mão há muito já não é tão invisível assim. Basta abrir o jornal ou assistir a um show no Parque do Ibirapuera para encontrar a marca de uma das grandes empresas patrocinadoras de cultura estampada em algum canto estratégico. Mas será que não há brechas nesta indústria em que se transformou a cultura? Ou melhor, as artes podem andar com suas próprias pernas? (Ou até com as pernas dos outros, mas de forma interessada, não interesseira?) Apesar de não ser nova, a discussão é encrespada e mereceria um maior número de linhas. Por isso, ficaremos apenas com a última pergunta, que já ocupa muitas delas.

Fixando a atenção apenas no segmento da dança no Brasil, a resposta à questão é provavelmente não. Seriam necessárias muitas pernas e inclusive braços – sem contar literalmente com o suor de seus intérpretes e criadores – para que tal movimento acontecesse. Não se trata de uma hierarquia entre as artes, mas de uma dificuldade concreta nos dias atuais em relação à dança. Se o setor fosse contar apenas com o valor destinado pelo governo, estaria decretada a sua morte. E se, por outro lado, se visse sem o apoio financeiro das empresas, o razoável fervilhamento de espetáculos de dança no país desabaria. Para se ter uma idéia, só em São Paulo, 90% das ações culturais contam com o apoio da iniciativa privada (1). E no caso da dança a situação não é muito diferente. Convém lembrar, que a figura do mecenas já é antiga no seu persurso histórico. Data da segunda metade do século XVI, quando o balé de corte ensaiava seus primeiros passos com incentivo da rainha Catarina de Médicis e do rei Luís XIV.

Hoje, apesar dos reis serem outros e apoiarem-se em mecanismos de incentivo fiscal criados pelo Estado, a idéia é basicamente a mesma. E, curiosamente, as primeiras iniciativas de patrocínio cultural no Brasil destinaram-se a grandes companhias de dança, além de orquestras sinfônicas internacionais (2). Atualmente, segundo pesquisas realizadas pelo Ipea, Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada, a criação e manutenção das companhias da área ocupa o 13º lugar entre as atividades sociais mais comumente executadas pelas empresas. Um fenômeno que vem crescendo e ampliando seu foco de atuação; o patrocínio hoje já não se concentra tanto no balé clássico. Os gerentes de marketing das empresas parecem estar se interessando cada vez mais pela imagem que a dança contemporânea agrega às suas marcas. Uma parceria que sugere inovação. Ou nas palavras de Marcos Barreto, gerente de marketing da Telemig Celular, ruptura.

Em 1999, quando ele reassumiu o cargo, precisava encontrar uma forma de fazer diferença, conta. E a dança contemporânea foi a solução. Segundo ele, o foco neste vocabulário provocou uma verdadeira revolução. Com isso, a empresa, que investirá este ano R$ 770 mil em dança (em torno de 12% do investimento total em cultura), além de promover momentos de apreciação estética, iniciou um trabalho de formação de público, colocando em contato companhias mais arrojadas com outras mais estabelecidas. Entre elas, Thembi, Lu e Margô, Marcelo Gabriel, Adriana Banana, Balé de Rua, SeráQuê?, 1º Ato e Dudude Herrmann 3.

“Aqui em BH, a Telemig é a secretaria de cultura”, diz Adriana Banana, uma das pensadoras do festival que selou a relação da Telemig com a dança contemporânea. Hoje chamado de Fórum Internacional de Dança, o FID é patrocinado pela empresa desde 1998 e foi quem primeiro chamou sua atenção para a área. Sem apelo mercadológico e voltado para a formação do pensamento da dança, o fórum anual, que oferece bolsas e oficinas a preços populares, ganhou mais corpo após o patrocínio, passando a incluir companhias internacionais na programação. “Sem a Telemig o FID não teria a continuidade que tem”, diz Adriana, que conta hoje com R$ 100 mil anuais de mecenato.

Além da Telemig, a Petrobras também tem uma parcela de investimento no FID, mas seu mais conhecido “namoro” é com o Grupo Corpo, uma das raras companhias que contam com patrocínio integral no Brasil. A empresa, que ostenta o segundo lugar entre as 100 maiores incentivadoras nas leis Rouanet e Audiovisual em 2002 (3), com valor de apoio na casa dos R$ 24 milhões (o primeiro é da Petrobrás – Petróleo Brasileiro/SA, com R$ 38), investe no Grupo Corpo R$ 3,5 milhões por ano como patrocinador exclusivo. O rico casal parece feito um para o outro e está longe de pensar em desquite; muito pelo contrário, a previsão é de que renda muitos frutos ainda. “A relação com o Corpo é a melhor possível porque ele possui todos os atributos da empresa: excelência, brasilidade, prestígio, diversidade e vanguarda do processo de pesquisa de linguagem. Ou seja, traduz a Petrobras no âmbito da cultura”, adjetiva Lorena Coelho, gerente de patrocínios. “Os passos do Grupo Corpo envolvem apoio e energia. Percebeu a presença da Petrobras?” O slogan do programa do espetáculo apresentado em agosto desse ano diz tudo e mais um pouco.

Em relação ao investimento em dança como um todo, segundo Coelho, não há foco em nenhum recorte específico. Os trabalhos podem ser selecionados via seleção pública ou através de convite da Petrobras. Este ano, as principais patrocinadas são a Cia De Dança Dani Lima, os espetáculos Marujá, da Cia Oito Nova Dança, Joaquim e Maria, da Márcia Milhazes Dança Contemporânea e espetáculo Bagaceira, da Cia Vatá, do Ceará, o FID, o Quasar Locomove, uma comemoração aos 15 anos da companhia, Deborah Colker e Ivaldo Bertazzo, além do Festival de Dança de Joinville. Não há cálculo de quanto é investido na área, mas para artes cênicas são R$ 12 milhões, “a maioria dança”. E para quem já pensa no ano que vem, o edital do Programa Petrobras de Cultura de 2004 deverá estar no site da empresa na segunda quinzena de outubro, com foco em memória e criação.

Outra gigante do patrocínio em dança é a Brasil Telecom, que, em 5º lugar no ranking das 100 maiores, investiu no ano passado R$ 22 milhões em artes cênicas, artes plásticas, cinema e literatura. Seguindo uma política interna, Natalice Mundim, gerente de projetos culturais e sociais da empresa, não divulga o valor do investimento em dança, mas pelo número de companhias patrocinadas dá para se ter uma idéia. Lia Rodrigues Companhia de Dança e Cia. Étnica, do Rio, Quasar, de Goiânia, Basirah e Alaya, de Brasília, Verve, do Paraná, Cena 11, de Florianópolis, Terpsi, do Rio Grande do Sul, Isadora Duncan, do Mato Grosso do Sul e Renata Melo, de São Paulo.

A proposta, segundo Mundim, é “nacionalizar os regionais”, tornando os grupos – a maioria de dança contemporânea – conhecidos tanto fora do eixo Rio-São Paulo quanto em seu próprio estado. Para isso, a empresa faz uma exigência aos patrocinados: ter um preço de bilheteria bem popular e oferecer oficinas gratuitas ao público, como acontece há dois anos no Festival Brasil Telecom de Dança. “Tivemos um retorno de público que nos surpreendeu ano passado e por isso vamos continuar”, antecipa a gerente. E essa relação com os espectadores intensifica-se com a proposta de uma parceria duradoura. “Se a maioria (das companhias) não está (patrocinada) há quatro anos, pelo menos 90% está”, afirma.

Mas apesar do número de “cases” de patrocínio à dança no Brasil ser grande – poderiam ser citados ainda Banco do Brasil, Correios, Fundação Bradesco, entre outros – é preciso ter em mente que a ação é instável, sujeita aos “humores” do mercado. Além disso, deixa uma grande parcela de intérpretes e criadores à míngua do processo. Não se trata tanto, porém, de discutir os motivos dessa “exclusão do mecenato” – sabe-se que as leis de incentivo à cultura têm falhas -, mas de procurar priorizar o outro lado da moeda: as políticas públicas da área. Talvez ajude ressaltar que a extinção do investimento privado sugerida no início do texto apenas a título ilustrativo, não está muito longe de se tornar uma realidade. A reforma tributária aprovada pelo governo prevê a extinção das leis estaduais de incentivo à cultura no prazo de três anos. Aí sim, se tornaria urgente pensar no outro lado. Parece haver muito movimento pela frente.

(1) fonte: Revista Exame São Paulo
(2)fonte: Revista Exame São Paulo
(3) fonte: Ministério da Cultura.

The synchrony between the market and culture is a complicated movement. It is an obtuse and often treacherous partnership, but at the same time, it is inherent to the diffusion of the artistic result. And everything that one sees, especially that which impoverishes the cultural sector, is dominated by the invisible hand of the market. In the end, it is not necessary to look very far to see that this hand is not very invisible anymore. All one needs to do is open the newspaper or watch a show at Ibirapuera Park to see the brand of some huge company that is sponsoring the event in a strategically visible location. However, is it really true that there are no breaches in this industry that transformed culture? Or better, can the arts walk on their own two feet (or even with the feet of others, but with a sincere interest instead of self-interest)? Even though it is not new, the discussion is highly polemic and in theory deserves more print than it is given in this article. Therefore, we will focus only on this last question, which already occupies many of the lines below.

If one were to focus attention only on the dance segment in Brazil, the answer to the question above would most likely be no. Many legs and arms would be necessary (without counting, literally, on the sweat of interpreters and creators) for such a movement to occur. We are not talking about a hierarchy among the arts, but rather a concrete difficulty facing dance today. If the sector were to count solely on the funds it receives from the government, it would be decreeing its own death. If dance did not benefit from the financial support of companies, the reasonable offering of dance performances in the country would collapse. In São Paulo alone, for example, 90% of cultural productions rely on the support of private initiative(1). In the specific case of dance, the situation is not much different. It is important to note that this Maecenas figure has existed for centuries, dating back to the second half of the 16th century when the court ballet rehearsed its first steps with the incentive of Queen Catarina de Médicis and King Louis XIV.

Today, in spite of the fact that the “kings” are different and that they are supported by tax incentive mechanisms created by the state, the idea is basically the same. And curiously, the first initiatives of cultural sponsorship in Brazil were destined at two groups: large dance companies and international symphonic orquestras(2). According to research recently conducted by the Applied Economics Research Institute, the creation and maintenance of dance companies occupies the 13th place among the most common social activities sponsored by companies. It is a phenomenon that has been growing and expanding its focus; sponsorship today is not all concentrated on classic ballet. Company marketing managers appear to be increasingly interested in the image that contemporary dance adds to their brands. It is a partnership that suggests innovation. In the words of Marcos Barreto, marketing manager of Telemig Celular, it is “rupture.”

In 1999, when Barreto reassumed his position, he explains that needed to find a way to make a difference. As it turned out, contemporary dance was the solution. According to Barreto, the focus on the vocabulary provoked a true revolution. The company decided to invest R$ 770,000 in dance this year (around 12% of the total investment in culture). In addition to promoting moments of esthetic appreciation, the company initiated a project of public development, putting more fledgling companies in contact with more established companies. These companies include Thembi, Lu e Margô, Marcelo Gabriel, Adriana Banana, Balé de Rua, SeráQuê?, 1º Ato and Dudude Herrmann 3, among others.

“Here in Belo Horizonte, Telemig is the secretary of culture,” said Adriana Banana, one of the masterminds behind the festival that sealed the relationship between Telemig and contemporary dance. The company has sponsored The International Dance Forum (Forum International de Dança or FID) since 1998. Without marketing appeal and directed at the development of thought and opinion about dance, the annual forum (which offers scholarships and workshops at discounted prices) gained more substance after the sponsorship and began to include international companies in its programming. “Without Telemig, FID would not have the continuity that it does,” said Banana, whose dance company receives approximately R$ 100,000 annually from the company.

In addition to Telemig, Petrobrás also invested a portion in FID, but the company’s most well known “love affair” is with the Grupo Corpo dance group. Grupo Corpo is one of the few companies that receives all of its sponsorship in Brazil. While Telemig holds second place among the 100 largest inciters of the Rouanet and Audiovisual laws in 2002(3) (the company provides a total support of R$ 24 million), the first place goes to Petrobrás – Petróleo Brasileiro/SA (R$ 38 million). Petrobrás invests R$ 3.5 million per year in the Grupo Corpo as an exclusive sponsor. Each member of this prosperous couple appears to be made for each other, and neither would ever think of separation. Rather, much to the contrary, the prediction is that such a relationship will only continue to bear fruit. “The relationship with Corpo is the best possible because its possesses all of the attributes of the company: excellence, ´brazilianess,’ prestige, and diversity. In other words, such a relationship places Petrobrás in the cultural field,” said Lorena Coelho, sponsorship manager. “The steps that Grupo Corpo take involve both support and energy. Did you perceive Petrobrás´presence?” The slogan printed in the program of the performance last August says everything and more.

According to Coelho, in relation to investment in dance as a whole there is no focus on any specific segment. The projects can be selected by the public or through Petrobras´ invitation. This year, the main sponsored events are Cia De Dança Dani Lima, Marujá by Cia Oito Nova Dança, Joaquim e Maria by Márcia Milhazes Dança Contemporânea and Bagaceira by Cia Vatá, the FID, Quasar Locomove (a celebration of the company’s 15 years), Deborah Colker, Ivaldo Bertazzo, and the Festival de Dança de Joinville (Joinville Dance Festival). There is no calculation of how much is invested in the area, but for the scenic arts, it is R$ 12 million: “the majority dances.” And for those already thinking about next year, the placard of the 2004 Petrobrás Cultural Program will be available online at the company’s website around the October 15. The focus of next year’s program will be memory and creation.

Another giant of dance sponsorship in the country is Brasil Telecom. In 5th place in the ranking of the 100 largest, the company invested R$ 22 million last year in scenic arts, plastic arts, cinema and literature. Natalice Mundim is the cultural and social project manager of the company. While Mundim cannot reveal the value of the investment in dance due to company policy, the number of dance companies that are sponsored most certainly gives an idea. Lia Rodrigues Companhia de Dança e Cia, the groups Étnica from Rio, Quasar from Goiânia, Basirah e Alaya from Brasilia, Verve from Paraná, Cena 11 from Florianópolis, Terpsi from Rio Grande do Sul, Isadora Duncan from Mato Grosso do Sul and Renata Melo from São Paulo.

According to Mundim, the proposal is to “nationalize the regional”, transforming the groups- the majority from the area of contemporary dance – into well-known entities both outside the Rio-São Paulo axis as well as in their own state. In order to do this, the company is making some demands of the sponsored groups: they must offer lowered ticket prices and free workshops to the public. Such practices were employed two years ago for the Festival Brasil Telecom de Dança (Brasil Telecom Dance Festival). “We had a public return that surprised us last year, and it is because of this popularity that will continue,” said Mundim. It is this relationship with the spectators that becomes more intense with the proposal of an enduring partnership. “If the majority (of companies) have not been (sponsored) for the at least four years, at least 90% have”, she said.

However, in spite of the number of “cases” of dance sponsorship in Brazil being many – and we could cite Banco do Brasil, Correios, Fundação Bradesco, among others – it is important to have in mind that the action is still unstable, subject to the “mood” of the market. In addition, it leaves a large portion of interpreters and creators out of the process. Nevertheless, we are not talking about discussing the motives for this “exclusion of the patron,” (after all, it is known that tax incentive laws for culture do have their weak points) rather we are talking about looking to prioritize the other side of the coin: the public policies of the area. Perhaps it should be emphasized that the extinction of private investment suggested at the beginning of this text as an illustrative title is not far from becoming a reality. The tax reform approved by the government will make state cultural incentive laws extinct within three years. At that time, thinking about other alternatives will become urgent. There appears to be a great deal of commotion ahead.

OB. EUR $ 1 = R$ 3,20
(1) source: Exame São Paulo magazine
(2) source: Exame São Paulo magazine
(3) source: Ministry of Culture.

One Comment

  1. 2 de dezembro de 2008 at 12:31 · Responder

    procuro logomarca para um festival de dança no muvnicipio de parauapebas

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