Novos ares ao Norte | New winds up North

Final do século 20, início de um novo. Dois acontecimentos marcaram o fazer dança na cidade de Manaus: em 1998 a criação do Corpo de Dança do Amazonas e em 2001 a criação do Curso de Dança da Escola Superior de Artes e Turismo da Universidade do Estado do Amazonas (UEA). Durante este período a cidade respirou novos ares, e o governo do estado investiu nos corpos estáveis, no festival de ópera, na criação de espaços artísticos, agregando ao marketing da Amazônia ecológica as imagens de sua produção artístico-cultural. Oportunidade de crescimento, troca de informações, questionamentos e experimentações..The end of the 20th century and the beginning of the new century. Two events served as milestones for the dance community in the city of Manaus, Brazil: In 1998, it was the creation of the Amazon Dance Group (Corpo de Dança do Amazonas or CDA), and in 2001, it was the creation of the Dance major at the School of Arts and Tourism at Amazon State University. During this period, the city took a breath of fresh air as the state government invested in fit bodies, the opera festival and the creation of artistic spaces. Such investments added images of artistic-cultural production to the traditional concept of the ecological Amazon that has been marketed throughout the world..

Hoje, 2003, é tempo de refletir e avaliar os desdobramentos, as tendências e os produtos gerados por este investimento, assim como as reivindicações dos profissionais de dança e de outras classes artísticas. .

Atualmente o Corpo de Dança do Amazonas (CDA) possui em seu histórico, sob a direção artística e coreografia de Joffre Santos, as obras Xamã, Puracy, Desejo, Da cor azul e Floresta do Amazonas, assim como Sagração da Primavera (Ivo Karagueorguiev), Another Time to Breathe, Carnaval dos Animais (Paulo Fonseca), Mandala (Luis Arrieta) e as coreografias criadas pelos próprios bailarinos do CDA: Dual (Yara Costa), Recreio (Guto Domingos), Madeireiro (Eduardo Amaral) e Armas da Tribo (Robson Tadeu). Nesta primeira fase, o CDA oscilou entre temáticas amazônicas e a criação de coreógrafos convidados. Este ano, com Ivonice Satie na condição de diretora artística e coreógrafa, Manaus assistiu à remontagem de sua Criação e Kronos e aguarda a estréia de Traços, de Henrique Rodovalho e Noite Transfigurada, de Anselmo Zola, ambos coreógrafos convidados. .

O que se pode observar, analisando o percurso desenvolvido até aqui, é que neste segundo momento administrativo afirma-se uma tendência para a remontagem de obras cuja estética data-se nas décadas de 80 e 90, para a oferta de intercâmbio com profissionais convidados, e um espaço “tímido” para que os profissionais de Manaus invistam em seus processos criativos. .

Há algo bom nisso tudo. Mas também há algo que preocupa. Durante este processo não se tem aprofundado as questões do corpo, exatamente o fundamento para as transformações em dança, pois a dança está no corpo e não no “discurso’ que se faz sobre ela. Não se constrói danças apenas com argumentos bem desenvolvidos retoricamente, expondo os desejos ou os valores individuais, como “o sentimento que vem de dentro”. Pode ser que muita coisa consiga incorporar-se no figurino, ou no cenário, mas se a coreografia repete vocabulários e sintaxes já conhecidos e que provocam bocejos é preciso avaliar o caminho trilhado. Trata-se de repensar o quê/ por quê/ quando/ como/ onde um corpo estável como o CDA pode se complexificar e se enriquecer em tessitura cênica..

É preciso ter um projeto estético para evitar as meras reproduções de espetáculos datados. É preciso levantar questionamentos e acredito mesmo que com uma direção artística reconhecida nacionalmente, esta deve ser acompanhada por um Conselho de Artistas que oportunize a exposição do pensamento dos bailarinos e profissionais de dança sobre seu entendimento da dança para a cidade, seu papel artístico, social, educacional e de cidadania. Principalmente quando as diretrizes do atual governo do estado orientam-se prioritariamente para a popularização e interiorização da cultura, o que significa o trabalho para os bairros distantes e o interior.

Há também que se pensar um projeto de política cultural no qual se tenham asseguradas as vozes dos bailarinos, coreógrafos, pesquisadores e produtores no que se refere aos seus direitos trabalhistas, reforçando sua condição profissional e propiciando-lhes formação afinada com a ciência e a arte contemporâneas, estimulando o debate e as vivências sobre valores e paradigmas da sociedade global e regional.

Eis então o papel da Universidade. A sua importância na formação de profissionais e na difusão e geração de informações. Pode-se ver o Curso de Dança como uma fonte responsável pelo fomento, desenvolvimento e expansão de práticas cênicas que possam criar formas outras, relações novas e ousadas para esta arte, por meio de seu tripé ensino-pesquisa-extensão. Esta tem sido a tendência dos laboratórios de investigação em dança no ambiente universitário ao prover conhecimento sistematizado. .

Conhecimento que envolve observação minuciosa, descrição, coleta de dados, interpretação e síntese dos resultados. E que nem por isso é menos criativo. Conhecimento que não se dissocia do compromisso com o ser humano, possibilitando-lhe uma existência com qualidade de vida e garantindo-lhe um processo evolutivo..

Certamente o curso de dança tem exercido considerável influência na cidade. A ocupação de um espaço físico no qual é dever pensar a dança, de certa forma, garante sua veiculação nos meios de comunicação com exigências outras que não apenas os comerciais para os clubes dançantes. E a população começa a elaborar outras associações não mais direcionadas ao “Xiado da Chinela”, ou às noites de Flashdance..

Os períodos que antecedem o vestibular têm gerado burburinho sobre sua preparação enquanto um campo de conhecimento específico e mesmo aqueles que ainda não conseguem visualizar a diferença entre dança como “entretenimento” e dança como arte teatral acabam por compreender as distintas características quando solicitam pronto retorno de suas reclamações após o insucesso nos testes. Os próprios alunos atuam como agentes transformadores desta realidade na medida em que divulgam suas disciplinas de estudo e buscam refinamento intelectual para suas leituras do mundo e composições cênicas..

Desde a sua criação o Curso de Dança da UEA tem buscado apresentar-se como agente fomentador da discussão sobre a dança enquanto objeto de conhecimento, e seus saberes paralelos, abrindo espaço para mostras de vídeo, debates acerca da produção nacional e internacional, fóruns de reflexão sobre as diversas expressões da dança no Amazonas, seminários sobre processos criativos ou mesmo contribuindo para a inserção ou massificação de novas palavras no vocabulário social corrente, tais como profissional de dança ou pesquisador do movimento. Termos que até então possuíam apenas o referencial semântico relacionado ao dançarino, levando a uma generalidade que não ajuda muito quando o importante é esclarecer as diferenças.

Obviamente ainda há muito a ser feito e durante muito tempo, principalmente porque este curso é o pioneiro na Região Norte. Mas o importante é que se possa reconhecer sua relevância para o crescimento cultural da cidade e seu papel aglutinador e difusor das mais diferentes formas de manifestação e pensamento sobre a dança.

It was an opportunity for growth, for the exchange of information, for questionings and experimentations. The year 2003 is a time to reflect on and evaluate the discoveries, tendencies and creations generated by this investment, in addition to addressing the demands of dance professionals and other artistic classes..

Until today, CDA has performed the pieces Xamã, Puracy, Desejo, Da cor azul, and Floresta do Amazonas under the artistic direction and choreography of Joffre Santos. The group has also performed Sagração da Primavera (Ivo Karagueorguiev), Another Time to Breathe, Carnaval dos Animais (Paulo Fonseca), and Mandala (Luis Arrieta). In addition, the group has had the opportunity to perform choreographies created by its members, including Dual (Yara Costa), Recreio (Guto Domingos), Madeireiro (Eduardo Amaral) and Armas da Tribo (Robson Tadeu). During this first phase, CDA oscillated between Amazonian themes and the creations of invited choreographers. This year, with Ivonice Satie working as artistic director and choreographer, Manaus was audience to the reconstitution of her work, Criação e Kronos as they awaited the debut of Traços by Henrique Rodovalho and Noite Transfigurada by Anselmo Zola. Both of these choreographers were invited to perform their pieces. .

What can be observed by analyzing the historical course of events is that it was in this second administrative moment that the tendency was affirmed for the reconstitution of artistic performances with an esthetic dated back to the 1980s and 1990s. Such a tendency offered a rich exchange with invited professionals, and a “timid” space for the Manaus professionals to invest in their creative processes..

There is something indeed positive in all of this progress, but there is also need for concern. During the process, issues about the body were not explored in depth, and these issues are exactly the foundation for transformations in dance because dance is in the body and not in the “discourse” created about it. Dances are not constructed solely by rhetorically well-developed arguments that expose the individual desires and values such as the “feeling that comes from within.” It may be that many things can be incorporated into the model or the setting, but if the choreographer repeats the familiar vocabularies and syntaxes that provoke yawns, it is necessary to evaluate the course taken. It is a question of re-thinking the who, what, when, how, and why a stable entity such as CDA can enrich its scenic texture..

It is necessary to have an esthetic project to avoid the mere reproductions of dated performances. It is also necessary to raise questions, and I sincerely believe that with a nationally-recognized artistic direction, this should be accompanied by an Artists Council that allows dancers and dance professionals alike to expose their thoughts and feelings about their understanding of dance and its importance to the city, as well as their own artistic, social, educational and citizenship role. Principally when the policies of the current state government are oriented to prioritize the popularization and interiorization of culture, which means more work and effort reaching distant neighborhoods and the mid-land region. .

It is necessary to contemplate a cultural policy that includes the voices of dancers, choreographers, researchers and producers in respect to worker’s rights, one that reinforces their professional conditions and provides them an education that integrates science and contemporary arts, stimulating the debate and the experiences concerning values and paradigms of global and regional society..

This is, therefore, the role of the university. This is its importance in the formation of professionals and in the diffusion and generation of information. The Dance major is a source that is responsible for the stimulation, development and expansion of scenic practices that can create other forms and relationships that are daring and new for this art through a triple combination of teaching, research and extension. It has been the tendency of laboratories of research in dance within the university environment to provide systemized knowledge. .

It is a type of knowledge that involves detailed observation, description, data collection, and the interpretation and synthesis of results. And this does not make the art less creative. It is knowledge that is not disassociated from commitment like the human being is, and this is what allows it to exist with a quality of life and guarantees its evolutive process..

Certainly, the dance major has exercised considerable influence in the city. The occupation of a physical space within which it is necessary to think about dance. It is a space that guarantees the art’s presence in the different forms of mass communication. The population thus begins to elaborate other associations beyond those of “Xiado da Chinela” and Flashdance. .

During the semesters that precede the entrance exam, there has been commentary about preparing for the major as a specific field of knowledge. Even those that still have not been able to visualize the difference between dance as “entertainment” and dance as a theatre art have come to understand the distinct characteristics when they fail to pass the exams. Even the students act as transforming agents when they expose their study disciplines and search for intellectual refinement for their world readings and scenic compositions..

Since its creation, the Dance major at Amazon State University has sought to present itself as a stimulating agent in the discussion of dance as an object of knowledge, thus opening a space for video exhibits, debates about national and international production, forums of discussion about the diverse dance expressions of the Amazon region, seminaries about creative processes or even the direct contribution to the insertion or massification of new words in our current social vocabulary, such as dance professional or researcher of movement. These are terms that were before only semantic references to the dancer, generalized to the point that they did not help much when the important thing is an explanation of the art form. .

Obviously, there is still much to be done over a long period of time, principally because this course of studies is a pioneer in the Northern Region of Brazil. However, the most important thing that one must recognize is the area’s relevance for the cultural growth of the city, as well as its uniting and diffusing role for the most diverse forms of expression and opinion about dance.

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