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Residência reúne artistas e produtores em processo de criação em Teresina

Como nos apresentamos publicamente ou como nos escondemos publicamente quando queremos nos apresentar de alguma maneira? Essa pergunta é o ponto de partida para o projeto Campo Aberto, que reúne em Teresina a plataforma Demolition Incorporada, da cidade, e a Companhia Wild Vlees, de Amsterdã.

Esse intercâmbio consiste de dois processos que ocorrem paralelamente e em constante diálogo: uma investigação física, conduzida por Tamar Blom e Marcelo Evelin, e uma residência de gestão criativa, conduzida por Regina Veloso e Job Rietvelt. A primeira é voltada a artistas ou qualquer pessoa com interesse nas artes performáticas e no trabalho corporal, a segunda a gestores e produtores culturais. O trabalho acontece do final de janeiro até o início de março. As inscrições vão até dia 15 de janeiro.

Sobre esse formato, que agrega a discussão da produção cultural a um processo de investigação artística, Regina Veloso, que é produtora desde 1997, e dedica-se a uma gestão cultural compromissada com seus desdobramentos sociais e políticos conta que a motivação estava no interesse pelo formato de residência artística e, ao mesmo tempo, na falta que sentia desse tipo de espaço para pensar no seu próprio ofício.

Idança: Como surgiu essa ideia de articular uma residência artística com uma residência para produtores? O que você acha que pode surgir dessa proposta?

Regina: Há alguns anos vejo e trabalho de alguma forma para que artistas tenham oportunidades de aproximação, conhecimento, e troca via residências artísticas; e percebo neles o quão é potente esse ambiente de deslocamento, compartilhamento e “mistura” ali gerado. Como produtora, venho sentindo muito a falta deste tipo de lugar para pensar e desenvolver também o trabalho a qual me dedico.

É um trabalho que tende a estar permanentemente sob pressão de uma responsabilidade direta sobre prazos, orçamentos e soluções, e que ao mesmo tempo precisa ser capaz de ver em perspectiva e dialogar subjetivamente com os processos criativos – algo que demanda habilidade e sensibilidade e, principalmente, prática em tal articulação.

Em exponencial por viver e conduzir meu trabalho onde não há faculdade de produção (a mais próxima fica a mil quilômetros) e onde são pouquíssimos profissionais da área (Teresina), promover um ambiente de encontro entre produtores focado na troca de experiência entre eles, foi algo traçado como meta inadiável para 2016.

Idança: Como você vê o panorama da formação de produtores artísticos e o mercado de trabalho para esse setor no Brasil hoje?

Regina: Partindo da realidade de quem vive no Piauí, vejo que aqui e na maioria dos estados brasileiros a formação ainda se baseia na eminentemente na experiência própria, na pesquisa individual e constantemente na urgência do artista produzir seu próprio trabalho, o que dificulta sua atuação nas duas frentes. São poucas as faculdades e estas concentradas em algumas regiões do país. Além de promover sua própria formação, produtor tem no Brasil que promover o seu próprio mercado de trabalho. As políticas públicas federais para a cultura sofreram avanços na última década, mas regrediram nos últimos anos com cortes de orçamento e programas do Ministérios da Cultura. No Piauí, a situação é ainda mais grave, sem políticas públicas, leis de incentivos nem perspectivas a curto prazo pra que isso se altere. Entendo que isso aumenta a responsabilidade do profissional da arte e da cultura, de  se articular melhor politicamente por mudanças estruturais.

Idança: Produtor é artista também? Criar condições para que o trabalho aconteça também é uma forma de criação?

Regina: Afirmo que deve se entender como artista e atuar partindo desse entendimento. Que a consciência do seu lugar de criador de condições, de ambientes, de possibilidades e de relações, amplia os projetos e, acima de tudo, amplia o lugar do sensível na sociedade, o que é muito e cada vez mais importante.

 

Para participar, os interessados devem enviar por e-mail, até o dia 15 (sexta-feira), as seguintes informações: nome completo, nome artístico (opcional), idade, contatos telefônicos, foto, uma breve biografia, uma breve carta de motivação. Os endereços são campoaberto.artistico@gmail.com, para os interessados na investigação corporal, e campoaberto.gestao@gmail.com, para os interessados na residência em gestão criativa. A seleção será feita em duas etapas e os pré-selecionados serão convidados para uma entrevista ou para uma sessão coletiva de trabalho.

A investigação física acontece de 10 de fevereiro a 3 de março e a residência em gestão de 25 de janeiro a 5 de março, em turnos de 4 horas diárias. Os participantes recebem uma pequena ajuda de custo diária, e são responsáveis pelos custos com passagem, hospedagem e alimentação, no entanto, a produção do projeto pode mediar o aluguel de quartos por custos baixos em casas na região do local de trabalho.